sábado, 31 de janeiro de 2009

Revisões

Consoante prometido, aqui ficam alguns exercícios de preparação, a nível de funcionamento da língua, para o teste de avaliação da próxima quarta-feira.

1. Indique o que podemos pressupor nos seguintes enunciados:
  • A Ana desistiu de ler o Felizmente há Luar!.
  • Foi uma coisa única: nem a Joaquina fez o teste de Português...
2. Refira a máxima conversacional desrespeitada pelo locutor na seguinte frase: Uma mulher é uma mulher!

3. Indique os actos ilocutórios em evidência nas frases que se seguem.
  • O professor está a falar com os encarregados de educação. Parece-me que se estão a entender.
  • Agrada-me que participes nas actividades do grupo de Português.
  • Duvido que o Benfica seja campeão este ano.
  • Meus senhores, o Eng.º José Sócrates fica isento de pagamento de IRS por ser PM - disse o Director-Geral dos Impostos.
4. Dos elementos assinalados, distinga os que apresentam valor deíctico dos que têm valor anafórico.
  • Hoje, o Benfica joga com o Rio Ave.
  • Vou para a sala de aulas.
  • A sala estava desarrumada, mas foi ai que encontrei a colecção de cromos que tinha perdido há trinta anos.
  • Neste momento, tenho dificuldades em acreditar no sistema de justiça.
5. Leia o enunciado apresentado e, de seguida, identifique:
  • a) um exemplo de anáfora e o respectivo referente;
  • b) um caso de catáfora e o seu referente;
  • c) um exemplo de elipse.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Balada do 5.º Ano de Economia 1988/89

Mais um «retrato» da mais proeminente serenata monumental de que tenho memória, a de 1988/89. Neste caso, o grupo dá pelo nome de «Praxis Nova».


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Exames Nacionais - Calendário

A primeira fase de exames nacionais do Ensino Secundário realizar-se-á este ano de 16 a 23 de Junho, sendo as classificações afixadas a 07 de Julho, de acordo com um despacho publicado, ontem, no Diário da República.

O despacho, assinado pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, estipula que o exame de Português do 12.º ano de escolaridade inaugura o calendário, enquanto que as provas de Matemática A e B estão agendadas para o último dia da primeira fase, período em que se realiza um total de 27 provas.
O prazo normal para a inscrição nestas provas decorrerá de 02 a 11 de Março e o suplementar terá lugar nos dois dias seguintes. As inscrições para a segunda fase realizar-se-ão a 08 e 09 de Julho.

A segunda fase dos exames decorrerá de 13 a 16 de Julho, sendo as pautas fixadas a 30 de Julho.

Relativamente aos exames nacionais do 9.º ano, a primeira chamada, obrigatória, realizar-se-á a 19 de Junho para as provas de Língua Portuguesa e Português Língua não Materna e a 22 para Matemática, ocorrendo a afixação dos resultados a 13 de Julho.
Quanto à segunda chamada, para situações excepcionais, decorrerá a 25 e 26 de Junho, a Língua Portuguesa e Matemática, respectivamente, com os resultados a serem divulgados igualmente a 13 de Julho. Já a prova de Português Língua não Materna realizar-se-á a 13 de Julho e as pautas serão afixadas a 30 de Julho.
No 9.º ano, os alunos internos são automaticamente inscritos para estes provas, enquanto os externos e autopropostos deverão fazê-lo de 02 a 11 de Março.
Os exames de equivalência à frequência do Ensino Básico realizar-se-ão entre 19 de Junho e 06 de Julho, para o 3.º ciclo, e entre 25 de Junho e 07 de Julho para o 2.º ciclo. Haverá ainda uma segunda fase entre 01 e 07 de Setembro, para os dois ciclos.

Antecipação do termo das aulas (11.º e 12.º anos)


A ministra da Educação antecipou o termo das aulas em quatro dias (5 de Junho) para que o processo de exames nacionais de acesso ao Ensino Superior esteja concluído antes das férias de Verão.

O fim das actividades lectivas para o 11.º e 12.º anos foi antecipado para 5 de Junho, dada a necessidade de concluir o processo de exames antes das férias, anuncia o Ministério da Educação.
Em despacho publicado quinta-feira em "Diário da República", a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, determina que as aulas do 11.º e 12.º anos terminem a 5 de Junho, quinta-feira, em vez do dia 9 do mesmo mês, terça-feira seguinte, para que o processo de exames nacionais de acesso ao Ensino Superior esteja concluído antes das férias de Verão.
Para os restantes anos de escolaridade, o ano lectivo acaba a partir de 19 de Junho.
O objectivo da antecipação do final do ano lectivo no 11.º e 12.º anos, segundo o despacho, é "conciliar os interesses das famílias dos alunos com os decorrentes da organização das escolas, o exercício do direito às férias dos diversos intervenientes nas actividades escolares e a necessária celeridade do processo de acesso ao ensino superior".
O Ministério da Educação diz ter tido também em conta os "constrangimentos que derivam das datas dos feriados nacionais" para alterar a data de encerramento do ano lectivo.


Fonte: Expresso on-line

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Referência anafórica

Aqui fica a referência a uma página interessante, se bem que algo complicadita, cujo conteúdo versa a referência anafórica:

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Professores em estado de choque perante a possibilidade de MLR se ir embora...

Origem e evolução da língua portuguesa

Na zona sudeste da actual Rússia, existiu uma língua desaparecida a que se convencionou chamar Proto-indo-europeu, da qual nasceram as línguas indo-europeias (ou Indo-Europeu), concretamente o indo-ariano, o tocário, o anatólio, o albanês, o arménio, o báltico, o grego, o celta, o germânico, o eslavo e o itálico.

Para o caso, interessa-nos o grupo itálico, onde se inscrevia o latim, língua da qual derivaram as designadas línguas românicas: o português, o galego, o castelhano, o catalão, o provençal, o francês, o italiano, o sardo, o romeno e o reto-romance.

Do grupo itálico destaca-se, então, o latim, língua falada na região do Lácio («latium» > lácio / latim), constituída por duas variedades: latim vulgar (a língua falada pelo povo, nomeadamente por soldados, comerciantes, funcionários, etc.) e o latim clássico (língua usada na escrita pelos escritores e nos discursos produzidos no Fórum). Ao longo da romanização, a forma imposta pelos romanos aos povos conquistados foi o latim vulgar. Tal sucedeu em diversos territórios e populações, incluindo aquele que constituiria futuramente Portugal. Assim, podemos afirmar que o latim vulgar constitui o estrato da língua portuguesa, isto é, a base do seu léxico.

Todavia, esse latim teve de conviver com as línguas pré-existentes nas diversas áreas ocupadas, os chamados substratos, ou seja, as línguas nativas que desapareceram por contacto com a nova língua, mas que deixaram nela vestígios linguísticos, e que eram, concretamente, as línguas celtas, ibéricas, fenícias e gregas.

Posteriormente, esse latim teve de conviver com as línguas dos povos que, de quando em vez, invadiam os territórios romanos e que nele deixavam as suas influências linguísticas. Estamos a falar, concretamente, dos povos germânicos, nomeadamente dos Visigodos e dos Suevos, por volta dos séculos V e VI d.C., e árabes (a partir de 711). Designam-se estas línguas superstratos.

E assim chegamos ao século IX, durante o qual, nas zonas da Galiza e do norte de Portugal, se usava ainda o latim (na escrita) e uma nova língua, o galego-português (na oralidade). Progressivamente, esta última foi ganhando autonomia, sobretudo a partir do século XII, coincidente com a independência lusitana. Seria el-rei D. Dinis quem teria o papel decisivo na afirmação da língua portuguesa, quando estabeleceu a obrigatoridedade de os livros e documentos oficiais serem redigidos em português.

Posteriormente, o português foi influenciado pelas línguas com quem os portugueses contactaram durante a época das descobertas (sécs. XV e XVI), sobretudo as existentes nas regiões da África, da Ásia e da América onde aportaram.

Com o decorrer dos séculos, a interpenetração linguística foi-se acentuando e, actualmente, o português está repleto de estrangeirismos ingleses, franceses, castelhanos, italianos... Em simultâneo, o progresso técnico e tecnológico foi contribuindi igualmente para o seu enriquecimento através dos neologismos que lhe emprestou / empresta.

Actualmente, o português é falado por cerca de 200 milhões de pessoas e constitui a língua oficial dos seguintes países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E o Dakar terminou...

Quem não se lembra da Susy Paula e do seu «Areias»? O «clip» é que não era nada de extraordinário, por isso, recentemente, foi feito um novo vídeo deste celebérrimo trecho musical.

Aqui fica ele...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Depois de, em 17 de Janeiro de 2009, Popeye ter surgido em banda desenhada, passou para o desenho animado em 1933, integrado na série de Betty Boop, numa produção dos Fleischer Studios para o King Features Syndicate.

O filme é este...


sábado, 17 de janeiro de 2009

Popeye


80 (oitenta) anos é uma bela idade.
O nome Popeye talvez não diga muito às crianças deste século, mas quem cresceu nos anos 70 e 80 (e, certamente, nas décadas anteriores) sabe bem quem é este herói, eternamente apaixonado pela sua Olívia Palito, disputada ao rival Brutus.

Hoje, 17 de Janeiro de 2009, Popeye faz oitenta anos. De facto, a 17 de Janeiro de 1929, surgiu, no New York Journal, este novo herói da banda desenhada, numa história da autoria de E. C. Segar. Nessa banda desenhada, Castor Palito, irmão de Olívia, regressa de uma viagem marítima em busca de uma galinha mágica e extremamente cobiçada, dado que quem se esfregasse nas suas penas alcançaria grande força e a invulnerabilidade. Perante a busca infrutífera, o irmão de Olívia Palito decide contratar um novo marinheiro para a sua tripulação. Quem? Obviamente, Popeye.

E quem é Popeye? O seu nome remete para «olho saído / arrancado» («pop» = "saltar", "arrancar" + «eye» = "olho"). De facto, no início, Popeye não tinha o olho direito, porém, a partir da década de 40, o herói passou simplesmente a aparecer com um dos olhos fechados. Outra das suas características inesquecíveis são os espinafres, que o marinheiro come para ganhar uma força indescritível e que lhe permitem vencer os obstáculos que surgem no seu caminho. A acompanhar, lá está a farda de marinheiro, o cachimbo no canto da boca e a tatuagem no braço.

Depois da banda desenhada, Popeye saltou para o desenho animado, tendo surgido inicialmente associado a Betty Boop. Seguiu-se o cinema e, actualmente, marca também presença nos videojogos.

Popeye é, em suma, um dos heróis com que várias gerações cresceram que faz parte da geração de ouro do desenho animado, constituída, entre outras, por séries como as da Abelha Maia, do Tom Sawyer, do Marco, da Heidi, do Dartacão, da Vikie, da Pantera Cor-de-Rosa, etc., etc., tantas vezes trazidas pelo inesquecível Vasco Granja. Bons tempos, que eu não verei jamais...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Medina Carreira I

Pode não se concordar com o homem, mas nem que seja apenas pelo desassombro e pela frontalidade com que fala merece a pena ser ouvido.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Mulher Nova, Bonita e Carinhosa


Dedicada à mulher da minha vida...





No original, por Zé Ramalho.




Uma outra versão, na voz de uma "Mulher Bonita e Carinhosa"



segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Medina Carreira II

Sem palavras...


Verbo - Classificação

De acordo com a TLEBS, o verbo apresenta as seguintes classes:

1. Verbo principal: é o núcleo do grupo verbal.

O verbo principal contém as seguintes subclasses:
  • Transitivo directo: o verbo selecciona um complemento directo (O Benfica venceu o Vitória de Guimarães.).
  • Transitivo indirecto: o verbo selecciona um complemento indirecto (Telefonei à Teresa.), um complemento adverbial (O meu pé de laranja lima cresceu ali.) ou um complemento preposicional (O Mantorras caiu do terraço.).
  • Transitivo directo e indirecto: o verbo selecciona, simultaneamente, um complemento directo e um complemento indirecto (Ofereci flores à minha mãe.) ou um complemento directo e um complemento adverbial ou preposicional (A Ana Luísa deixou o bisturi na sala.).
  • Transitivo predicativo: o verbo selecciona um complemento directo e um predicativo do complemento directo (Os alunos elegeram a Josefina delegada de turma.).
  • Intransitivo: o verbo não selecciona qualquer complemento (O meu filho tossiu.).
  • Impessoal: o verbo não selecciona qualquer sujeito e surge conjugado na 3.ª pessoa (Geou durante toda a noite.; alunos muito fracos).
2. Verbo copulativo: é o verbo que estabelece uma ligação entre o sujeito e o seu predicativo. Os verbos copulativos mais usados são «ser», «estar», «ficar», «continuar», «permanecer», «sair», etc.

3. Verbo auxiliar
: é o verbo que, conjuntamente com o principal, forma um complexo verbal.

O verbo auxiliar apresenta cinco subclasses:
  • Auxiliar dos tempos compostos: verbos "ter" ou "haver", seguidos de particípio passado, formando um tempo composto (O Benfica tem sofrido muitos golos.).
  • Auxiliar da voz passiva: verbo "ser", seguido de particípio passado de um verbo principal, forma frases passivas (O lançamento foi falhado pelo Dirk Nowitzki.).
  • Auxiliar temporal: verbos "ir" ou "haver de" (conjugados no presente), seguidos de infinitivo, indicando um valor de futuro (O Benfica há-de ser campeão.).
  • Auxiliar aspectual: formas verbais "estar a", "começar a", "deixar de", seguido de infinitivo ou gerúndio (O Benfica está a jogar mal.).
  • Auxiliar modal: verbos "poder", "dever", "ter de", seguido de infinitivo de um verbo principal (João, podias falar mais durante as aulas...; O Aimar tem de jogar melhor.).

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Fim de semana


Deixis

Etimologicamente, deixis liga-se ao acto de mostrar, de apontar através da linguagem; designa o conjunto de palavras ou expressões (expressões deícticas) que têm como função ‘apontar’ para o contexto situacional.

O sujeito da enunciação/locutor é o ponto central a partir do qual se estabelecem todas as coordenadas do contexto: eu é aquele que diz eu no momento em que fala; tu é a pessoa a quem o eu se dirige; agora é o momento em que o eu fala; aqui é o lugar em que o eu se encontra.
Entre os elementos que possuem função deíctica, contam-se as seguintes marcas:

1. Pessoal:
  • Pronomes pessoais;
  • Determinantes / pronomes possessivos;
  • Vocativo;
  • Marcas de flexão verbal (pessoa e número).

2. Espacial:

  • Advérbios ou locuções adverbiais de lugar (referenciados a partir do local de produção do discurso);
  • Verbos de movimento (com significado vectorial ou de orientação);
  • Determinantes / pronomes demonstrativos (proximidade / afastamento face ao emissor e/ou ao receptor).

3. Temporal:

  • Advérbios, locuções adverbiais ou expressões de tempo (referenciados a partir do momento de produção do discurso);
  • Advérbio de designação/apresentativo («eis»);
  • Marcas de flexão verbal:
    -» presente: simultaneidade;
    -» pretérito perfeito: anterioridade;
    -» futuro: posterioridade.

4. Social:

  • Formas de tratamento.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Bom regresso...

Actos ilocutórios

Qualquer frase, ao ser enunciada, orienta-se no sentido da realização de três actos: um acto locutório, um acto ilocutório e, eventualmente, um acto perlocutório.

Centremo-nos nos actos ilocutórios. Podem ser de seis tipos:


1. Assertivos : traduzem uma posição, uma verdade assumida pelo locutor.

  • O Eusébio foi um extraordinário futebolista.
  • Acredito que o Prado e o Desportivo de Mangualde subirão à 3.ª divisão.

2. Directivos: revelam a intenção de o locutor (através de ordens, sugestões, pedidos, …) conduzir o interlocutor a agir segundo o que lhe é dito, isto é, à realização de uma acção.

  • Assina aqui, João Ricardo!
  • A que horas se demite a ministra da Educação?

3. Expressivos: exprimem sentimentos, emoções, estados de espírito do locutor face ao que enuncia.

  • Gosto muito deste blogue.
  • Agradeço a Deus a minha vida.

4. Compromissivos : traduzem o compromisso de o locutor realizar uma acção futura.

  • No próximo dia 19 de Janeiro de 2009, farei novamente greve.
  • Sofia, se não me trouxeres a autorização assinada pela tua mãe até às cinco horas, não participarás na visita de estudo ao Inferno.

5. Declarações: expressam o poder (reconhecido institucionalmente) de o locutor criar / transformar uma realidade pelo próprio acto de dizer (actos oficiais: casamentos, reuniões, julgamentos).

  • Os serviços encerram por hoje.

6. Declarações assertivas: exprimem o que deve ser considerado como uma verdade a seguir, por o locutor possuir uma autoridade específica que é reconhecida pelo interlocutor.

  • É essencial que o senhor se case com a jovem que engravidou.
  • É a resposta da Inga Svensson que está correcta.

Todos estes actos se designam por directos. No entanto, existem também os chamados actos ilocutórios indirectos, quando o locutor quer dizer algo diferente daquilo que expressa em sentido literal. Tomemos o seguinte exemplo: quando o professor pergunta “Pode vir ao quadro resolver o T.P.C.?”, não visa saber se o aluno é capaz ou não de se deslocar até ao quadro e cumprir a tarefa solicitada; terá, sim, em mente, de uma forma mais simpática, fazer um pedido.

domingo, 4 de janeiro de 2009

É preciso acreditar!

Num momento em que o Ministério da Educação se prepara (é já amanhã...) para continuar a espezinhar a classe docente e a trilhar o caminho da degradação da chamada escola pública, aqui fica (mais) um fado de Coimbra, cujo refrão se adequa ao clima que se vive nas escolas portuguesas. É, de facto, preciso acreditar e continuar a cantar contra estes políticos e as suas políticas. Não está apenas em causa a classe ou a profissão, mas, sobretudo, uma concepção de escola / instrução pública, isto é, o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Mais: o que se congemina na obscuridade dos gabinetes não será menos trágico, bem pelo contrário. Infelizmente, o tempor dar-nos-á razão, pelo menos até que um qualquer Manuel Buiça irrompa por aí e repita o disparate.

O intérprete é o Dr. Luís Goes, outro dos grandes nomes da música coimbrã.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Autopsicografia - Uma leitura

"Autopsicografia" é um dos poemas mais conhecidos de Fernando Pessoa ortónimo, escrito segundo a poética tradicional: a composição poética adoptada é a quadra e a métrica o verso de redondilha maior; já a rima segue o esquema ABAB nas três quadras, sendo, por conseguinte, cruzada.

Em termos temáticos, estamos perante a teoria do fingimento poético, uma espécie de arte poética, ou de como se «faz» poesia, em particular, e arte, em geral. Assim, o sujeito poético parte de uma espécie de axioma: "o poeta é um fingidor". Convém notar que esta metáfora, associada ao verbo "fingir", não remete para o campo da «mentira» (fulano é um fingidor = fulando é um falso = mentiroso); de facto, estamos na presença de uma derivação do verbo latino «fingere, que significa «modelar, transformar, criar». Ou seja, o poeta é um criador, um transformador.
Esta tese do «eu» é demonstrada com base na dor, isto é, o acto de criação poética consiste na expressão de uma dor que, sendo primeiro sentida pelo sujeito poético, é representada, posteriormente, através da linguagem. Este dado remete, desde já, para uma dupla dor: a dor real sentida pelo SP e a dor fingida, imaginada, sendo esta última fruto da racionalização da primeira. A oração subordinada iniciada pela conjunção «que» traduz a consequência do que foi estabelecido na oração anterior - "finge tão completamente" -, ou seja, a consequência do acto de fingimento. Os advérbios "tão" (intensidade) e "completamente (modo) evidenciam o elevado grau de intensidade do acto de fingir.

A segunda quadra abre com uma perífrase ("E os que lêem o que escreve") que remete para os leitores. Quer isto dizer que, se na primeira estrofe o poeta tinha apresentado o processo de criação poética na perspectiva do poeta, na segunda o vai fazer na óptica do leitor. Assim, o leitor não tem acesso à dor real do poeta nem à dor imaginada por si; também ele tem de ter acesso a uma dor real para a poder fingir a partir do acto intelectual que é a leitura do poema. Esta dor intelectualizada, resultante da leitura do poema, é a que resulta da interpretação dos leitores, o que significa que há tantas dores dos leitores quanto as interpretações por eles feitas.

A terceira estrofe, de carácter conclusivo, explica o papel do coração (sentidos) e da razão (inteligência) no processo de criação artística. Deste modo, o sujeito poético estabelece um contraste entre o coração, símbolo da sensibilidade, e a razão, o raciocínio, o pensamento, apresentando o primeiro como um "comboio de corda", um brinquedo, procurando demonstrar que, na produção poética, a sensibilidade é subordinada à disciplina, ao mecanicismo da razão (as calhas da roda), ao pensamento. O movimento do coração (nas calhas) é, pois, mecanicista e processa-se a um ritmo inalterável; por outro lado, "entretém" a razão, ou seja, ilude-a, distrai-a, ocupa-a, mas também a mantém, a conserva e alimenta, fornecendo-lhe elementos para o fingimento, a criação poética. Quer isto dizer que as calhas exprimem a subordinação do sentir em relação à razão (pensamento), que ocupa um papel predominante na produção artística. Mas como o comboio não pode dispensar o carril, e o carril só tem razão de ser na passagem do comboio, razão e sensibilidade encontram-se intimamente ligadas.
Além disso, convém notar que a disposição circular dos carris aponta para outra linha de força da poesia de Pessoa: o coração "entretém" a razão, mas não lhe permite quaisquer avanços, porque se desenvolve em círculos, repetitivamente, o que gera angústia, pessimismo, cansaço.
E o que dizer do facto de Pessoa ter escolhido a dor enquanto «elemento» demonstrativo da sua tese?